No interior do Uruguai, especificamente no povoado de Tala, a cerca de 100 km de Montevidéu, décadas de cultivo intensivo de beterraba açucareira deixaram um legado preocupante: a contaminação do solo, dos lençóis freáticos e impactos negativos na saúde dos agricultores locais. O cultivo desta planta exigiu a aplicação massiva de agrotóxicos, utilizados por empresas tanto uruguaias quanto estrangeiras.
Apesar de a beterraba açucareira não ser mais cultivada na região, as consequências deste modelo de produção persistem na vida da população. A agricultura local tornou-se dependente da irrigação artificial, uma vez que os fertilizantes químicos comprometeram a capacidade natural do solo de reter a água da chuva.
De acordo com Marcelo Fossati, coordenador da Red Nacional de Semillas Nativas y Criollas, corporações multinacionais estão lucrando às custas da saúde da população e da degradação ambiental. A rede coordenada por Fossati engloba mais de 250 propriedades familiares e 350 produtores em diversos departamentos uruguaios. A instituição tem como objetivo principal resgatar e valorizar as variedades nativas de sementes para a produção familiar, visando tanto o autoconsumo quanto o abastecimento dos mercados locais.
Fossati relata que a falta de retenção de água no solo é um dos principais problemas, resultado da destruição da estrutura do solo pelos agrotóxicos. Quando chove, a água leva consigo o solo fértil para os rios, prejudicando o crescimento das plantas e tornando a irrigação essencial.
Além disso, a população local enfrenta problemas de saúde relacionados à exposição aos agrotóxicos. Casos de câncer no intestino, pele e esôfago, problemas respiratórios e dermatológicos têm se tornado mais frequentes entre aqueles que foram expostos desde a infância a esses produtos químicos. A falta de percepção dos riscos, devido à propaganda que minimizava os perigos, leva ao uso inadequado dos agrotóxicos, sem a devida proteção, resultando em contaminação ambiental e afetando até mesmo aqueles que não têm contato direto com os produtos.
Estudos também revelaram a contaminação da água subterrânea, com amostras de escolas rurais apresentando resíduos de agrotóxicos. As empresas apontadas como responsáveis são, em grande parte, empresas uruguaias que foram adquiridas por multinacionais, mantendo os nomes antigos para evitar associações diretas com os problemas causados.
Fossati ressalta a relação entre o uso de agrotóxicos e a emergência climática, destacando o alto consumo de energia na produção, aplicação e transporte desses produtos. A produção de agrotóxicos, sendo resultado de síntese química, demanda grande quantidade de energia, assim como o transporte da produção, como a soja, para outros países.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br